espera o outono, alice


Sempre que me atrevo a escrever sobre teatro gosto de deixar bem sublinhado o teor da minha relação com essa mídia. Na adolescência tive uma brevíssima experiência num curso de atuação, mas logo reparei que aquela não era minha área e enveredei nos caminhos do cinema. Sublinho isso porque acho irresponsável falar com falsa propriedade sobre algo que não se tem total compreensão, mas também acredito que um texto que tenta trazer apenas a verdade da experiência proporcionada por aquele objeto artístico tem sua validade.

Assisti Espera o Outono, Alice, segundo espetáculo do grupo pernambucano Amaré, numa circunstância e contexto muito particulares. Meu contato com membros do grupo já havia me alertado sobre o teor do texto, mas na semana em que de fato fui ao teatro conferir o produto finalizado, recebi a notícia do suicídio de um colega, um jovem rapaz que também habitava o universo das artes. Receei ficar muito fragilizado ao remexer nessa questão numa janela tão curta de tempo, mas infelizmente (ou felizmente?) as emoções de Alice não conseguiram mover muita coisa em mim.

Me permitindo uma digressão; acho que muito de nosso incômodo com a ideia de suicídio e morte tem mais a ver com os que ficam do que com aqueles que resolvem dar fim a própria vida. Um texto teatral, cinematográfico, ou correlato, que escolhe mergulhar nas águas turvas dessa questão muito geralmente vai se tornar uma discussão sobre saudade, sobre a ideia da inexistência, do desaparecimento, e raramente sobre a geografia sentimental de alguém num nível tão profundo de depressão. A narrativa de alguém que comete suicídio é por si só um grande ato final, quem precisa lidar com o desenvolvimento dessa história são os que acompanham de fora, o que pode ser lido como egoísmo ou autoconhecimento ou luto, ou como preferir.

Alice se posiciona numa área cinza quanto a essa questão. Ainda que seja uma tentativa muito ávida de investigação da psiquê de sua personagem título, ela é sobretudo uma peça sobre saudade, sobre compreender, de fora, o que talvez se passe ali dentro. A melhor das escolhas da montagem dirigida por Analice Croccia e Quiercles Santana, por exemplo, é a opção por uma estrutura narrativa fragmentada que escolhe embaralhar passado e presente (?) como num quebra-cabeças sobre quem era esta figura, o que ela queria, e o que deixou para trás quando decidiu tirar a própria vida. Soma-se a isso a também pulverização da figura física da personagem, interpretada pelos quatro atores em momentos diferentes (e melhor vivida por Gustavo Soares, em minha opinião), que concedem dimensões e pesos diferentes a cada passo de sua trajetória.

É notável que essa fragmentação era algo desejado desde a gênese do processo de pesquisa do grupo, mas ainda que uma dramaturgia precise beber de várias fontes para atingir um nível interessante de pluralidade, Alice parece deixar expostas as amarras entre essas provocações. Referências [e enxertos] como Isabel Coixet, Petra Costa, Carl Sagan, e Marla de Queiroz, rendem momentos muito belos e curiosos enquanto unidade, mas que não necessariamente conversam com fluidez. E numa nota bem mais pessoal, sinto como se as tintas usadas na construção do texto e de sua cenografia pisassem perigosamente num espaço lúdico, fabular.

Muito me parece que a estética empregada nas cenas deve bastante a um universo colorido e delicado que costumo associar ao cinema indie americano dos anos 2000 e 2010, com seus personagens problemáticos porém adoráveis. Não é a maneira que mais me agrada ver um debate sobre transtornos mentais ser iniciado, mas não posso tomar isso como uma negativa de fato; é uma escolha como qualquer outra. Não tive chance de assistir Amar é Crime, primeiro espetáculo do grupo, mas acredito que a inspiração no texto forte de Marcelino Freire se alinhe mais a minhas preferências.

Espera o Outono, Alice completou curta temporada de sucesso no Teatro Marco Camarotti, e deve retornar aos palcos em breve.