laços de starnone


Existe uma coisa (obviamente) fascinante no personagem insuportável. Enquanto o bom moço e o correto tem suas trajetórias algo mais fáceis de se delinear, os motivos de uma pessoa desprezível são quase sempre muito interessantes de se descobrir. Aldo, protagonista deste Laços, abandona mulher e dois filhos nos idos dos anos 70 sem grandes explicações. A mulher implora pela menor das razões, ele cala. Insuportável. O livro abre com as cartas que a amarga e destruída esposa endereça ao marido para que ele saiba, com riqueza de detalhes, o quanto exatamente essa aventura está custando ao psicológico dela e dos filhos. Vai levar bastante tempo na narrativa até que Aldo consiga esboçar um rascunho do que seria a razão para esta fuga tão intensa das amarras do matrimônio e da paternidade, e também as razões práticas para fazer o caminho de volta.

Ninguém é minimamente aprazível no livro de Starnone. Aldo, outrora professor e em sequência personalidade secundária de televisão, soa como um adolescente mimado que aprendeu um par de conceitos complexos num livro de antropologia qualquer e agora tenta aplicá-los a qualquer um de seus malfeitos. A esposa Vanda, ainda que "vítima", não fica atrás. Extremamente controladora e amarga mesmo antes dos eventos que conduzem a narrativa, se torna o panfleto de tudo aquilo que a revolução sexual experimentada por Aldo quer extinguir; da monogamia compulsória até a paternidade de fachada. Nem mesmo os filhos, que surgem na narrativa depois de velhos numa passagem ainda mais cínica que o resto da trama, ficam livres de perigosamente beirar a caricatura com sua visão apocalíptica do que significou a longa e penosa relação de seus pais e como isso refletiu em suas vidas adultas.

Ainda que no apanhado geral da coisa Laços seja um livro bastante sólido e interessante sobre o dilaceramento que ocorre quando a lógica vigente a qual nos apegamos começa a estalar e ruir, boa porção de sua força está na estrutura pensada por Starnone. Saltando no tempo com impressionante fluidez para buscar as chaves que destrincham a lógica de uma ruptura, momentos tão efêmeros quando a descoberta de uma moeda na areia da praia ou uma aula de como amarrar cadarços se tornam marcos para certa perversidade da existência. A destruição do apartamento deste agora idoso casal está ligada a algo que eles iniciaram num passado distante, num passado próximo, ou é uma simples casualidade? Não fosse a escolha de tratar esse pequeno litígio de uma família napolitana como um romance policial que aos poucos desvela suas intenções, muito seria perdido.

Domenico Starnone, grande nome da literatura em sua Itália natal, ganhou alguma projeção internacional quando se especulou que ele fosse o nome por trás do mistério de Elena Ferrante, ou que fosse casado com ela (Anita Raja, sua esposa, é apontada como detentora do pseudônimo). As suspeitas se adensam quando se compara Laços com o Dias de Abandono, escrito pela autora em 2004. Estão lá os mesmos temas, desdobramentos temporais parecidos, e o mesmo amargor para tratar de um relacionamento falido e um estado psicológico deplorável. Ainda que divertido pelo caráter investigativo da coisa, o debate sobre essas identidades é francamente inútil. São duas boas e francamente diferentes leituras.

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Laços (★★★★)
Domenico Starnone, Itália, 2014
Todavia, 144 páginas