janeiro 18


o concreto do poema
é querer aprisionar
a palavra que escorrega
o concreto do poema é ser cruel
como é a perna
quando escolhe correr sozinha
para longe do abraço
a perna é feita de medo assim como o poema é feito de perna
o concreto da perna é a calça apertada
o moderno da perna é a saia de tecido leve
a saia é feita do mês que passa queimando o rosto
quebrando o concreto da perna
desmatando a floresta para o poema correr livre
o moderno do mês que passa é fazer para acabar
o concreto do mês que passa é sentir gosto de novo e de doce e de homem
e gosto de gosto
é abrir o chuveiro e tomar o terceiro banho do dia
sem o poema

----------

CINEMA

Minha Única Terra é na Lua (★★★★½)
Sergio Silva, Brasil, 2017
Lindo.

Jovens Homens na Janela (★★★★★)
Loukianos Moshonas, França/Grécia, 2017
Este aqui e o acima citado curta do Sergio foram meus últimos filmes de 2017, e me causaram uma impressão tão forte que precisei revisitá-los de novo assim que o ano começou. São filmes de voz, de palavra, mas onde tudo aquilo que é dito contêm o gesto, o movimento, a intenção de existir. Amo.

Roda Gigante (★★★½)
Woody Allen, Estados Unidos, 2017
Entendo o ódio mas não consigo me alinhar. Escrevi um pouco sobre ele aqui.

120 Batimentos por Minuto (★★★)
Robin Campillo, França, 2017
Uma vez, durante uma discussão sobre Sangue Azul no meu Facebook, um amigo meu disse que 'é daquele tipo de filme que vai passando vai passando e quando você vê já acabou'. A sensação deixada por 120BPM é parecida. Odeio esse termo mas é o famoso filme 'correto'. Se fosse mais interessado na práxis da militância do grupo (como acontece por bastante tempo) e diluísse o protagonismo entre todos eles seria top, mas em certo momento fica com aquela cara de 'filme de doença', que não cai muito bem.

The Square (★★½)
Ruben Östlund, Suécia, 2017
Depois da vigésima sétima esquete sobre o estado da arte contemporânea e seu caráter elitista, a sociedade sueca e sua relação com a questão da imigração, o confronto do homem branco e rico com as agruras do mundo real, o recado já foi mais do que entendido e ainda falta uma hora de filme. Desapontador, Östlund me era muito interessante até agora.

The Room (★★★★★)
Tommy Wiseau, Estados Unidos, 2003
Hino atemporal.

A Padeira do Bairro (★★★★★)
Eric Rohmer, França, 1963

Norma Rae (★★★½)
Martin Ritt, Estados Unidos, 1979

Me Chame Pelo Seu Nome (★★½)
Luca Guadagnino, Itália/França/Brasil/Estados Unidos, 2017
Escrevi umas linhas sobre ele em novembro passado, mas a revisão só sustentou boa parte das ideias. Segue um filme que nega um bom pedaço de sua sexualidade para assegurar uma carreira vendável (não vê quem não quer), e tem um trato estranho com as personagens femininas. A coisa mais triste da história toda é o que acontece com a Marzia, coitada.

----------

LITERATURA

Moletom (★★)
Julio Azevedo, Brasil, 2017 / Globo Alt
Poesia urbana não é o gênero que mais me agrada (Zack Magiezi e Rupi Kaur, estou de olho em vocês), mas os quadrinhos do Julio em sua página homônima no Facebook tinham uma sensibilidade, uma ingenuidade que volta e meia rendia um sorriso sincero. Esperava que o primeiro livro do rapaz fosse uma graphic novel que unisse seus quadrinhos e poesias, ou algo nesse gênero, mas o que veio foi um romance, com algumas digressões visuais. Moletom, o livro, é um boy meets boy onde um rapaz, refugiado de uma rusga familiar, aparentemente iniciada por conta de sua sexualidade, se apaixona por outro rapaz na cidade onde viverá por pouco tempo. Até aí tudo bem, mas até as histórias mais simples, e sobretudo elas, precisam ser contadas com muito esmero para se tornarem interessantes. As personagens de Moletom são caricaturas de millenials, viciados em café, indie rock, e fofuras afins. Aquele sentimento, que ficava tão apropriado condensado numa tirinha, precisa de mais substância para sobreviver, o que não está na página. Esses rapazes vêm, vão, e você não teve como saber quem ou o quê eram de fato. Assim não funciona. Faço votos que o Julio se encontre como escritor, o talento está ali, falta lapidar.

20 Poemas para o seu Walkman (★★★★)
Marília Garcia, Brasil, 2007 / Cosac Naify
Você vai viajar e está voltando de viagem ao mesmo tempo. Você faz e desfaz sua mala. Você está num limbo entre ser e não ser. O nome de uma rua é uma memória feliz e algo que você não compreende. A saudade de alguém é uma saudade que você não sente, mas te consome por dentro. Qual é o alfabeto mais apropriado para usar com quem não é daqui nem de lá? Você ouve essa canção no seu walkman, no seu discman, no seu mp3, no seu celular. Você lê o livro da Marília e é um caderno de viagem de alguém que rodou o mundo, mas não tirou os pés do chão, mas rodou o mundo.

Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk (★★★★★)
Nikolai Leskov, Rússia, 1865 / Editora 34
Quando alguém chega arrotando seu Tolstoi e seu Dostoievski e dizendo que literatura russa é um bicho, que coisa difícil, você dá essa lapada de Nikolai Leskov no parceiro e manda abrir bem os olhos. Lady Macbeth, a louca de Mtsensk, a Nazaré Tedesco original, uma mulher batendo de frente com o patriarcado (ainda que fomentando o mesmo, em certo aspecto) para satisfazer primeira e somente os seus próprios desejos e vontades. Não tem nada de difícil aqui, difícil e complexo não andam lado a lado. Complexo sim; uma personagem construída tão discretamente, nuances pendendo pra todo lado, difícil não. O filme mais recente difere um pouco, mas não é ruim. Experimente ambos.

A Glória e seu Cortejo de Horrores (★★★)
Fernanda Torres, Brasil, 2017 / Companhia das Letras
Nunca tinha lido nada da Fernanda Filha, mas realmente acreditava que ela devia ter o seu talento nas letras como tem na ribalta, e não ser simplesmente produto fomentado pela família que tem. É um pouco verdade. A Glória... é um livro bom, divertido, conciso, um passeio cômico e trágico pela história da dramaturgia e teledramaturgia brasileiras contado através das desventuras de um ator desgraçado, mas não é muito mais que isso. O que pesa muito contra a Fernanda é o grande carnaval que se faz em torno do livro, e dela, tentando criar alguma ilusão de que se trata do próximo grande nome da literatura brasileira. Pode ser que sim, não duvido que a possibilidade exista, mas nessas páginas aqui não tem esse índice.

Em Louvor da Sombra (★★★★)
Junichiro Tanizaki, Japão, 1933 / Companhia das Letras
É um ensaio, coisa que não tenho muito costume de ler, sobre a invasão da luz ocidental na cultura japonesa, uma cultura que sempre prezou por tudo aquilo sombreado, discreto, escondido. Usando coisas tão díspares quanto teatro e o polimento de uma chaleira, Tanizaki discute a estética dessa modificação, a insidiosa influência do ocidente nos costumes de seu povo, e como isso mudou pontual e gradativamente alguns costumes dessa sociedade. No entanto, como comenta o prefácio dessa edição, os escritos de Tanizaki podem ser lidos também como um texto satírico, uma provocação às reservas de sua cultura. De uma maneira ou de outra, quero ler o que ele escreve em ficção pra investigar mais.

Cenas Londrinas (★★★)
Virginia Woolf, Reino Unido, 1975 / José Olympio
A não-ficção de Virginia Woolf tem momentos muito importantes, sobretudo no que diz respeito a seus escritos feministas. Cenas Londrinas, no entanto, não me soa muito alinhado ao valor sociológico ou estético desses outros textos. Compilação de cinco crônicas e um conto sobre as paisagens da Londres de sua época, o tom geral beira o aborrecido. Se o desejo era transportar o leitor para uma viagem por certa Londres que não existe mais, o tom empregado por Virginia, muitas vezes bastante elitista, tem o efeito oposto. Não chega a ser todo mau, mas sempre triste se desapontar com autores que soam impecáveis.

O Som e a Fúria (★★★★)
William Faulkner, Estados Unidos, 1929 / Companhia das Letras
Eu queria ter a envergadura moral e literária necessária pra criticar qualquer coisa que Faulkner já colocou numa folha de papel, mas como não tenho falo assim mesmo: Os anos de expectativa pela leitura de O Som e a Fúria não atrapalharam a experiência em nada, é um imenso romance, um desvelar incessante de virtuosismos, uma experiência de imersão como poucas. O problema, se algum, é mais ou menos esse. Se trata de um autor apaixonado pela obra de outro (não ver Joyce aqui é ser cego), fazendo toda sorte de malabarismo estético para transformar uma história francamente banal em algo grandioso. Funciona, mas não sem custo. O Som e a Fúria, soa refém de suas próprias escolhas, e não raro é limitado ao 'livro mais difícil de ler', quando na verdade é bem mais do que isso; é um belo estudo sobre o tempo, sobre vontade sobre caráter, e ainda tem uma das construções de vilão mais curiosas que já li. No mais, se o interesse é pelo autor, Enquanto Agonizo talvez seja um ponto de partida mais palatável.

103 Contos de Fadas (★★★★★)
Angela Carter, Reino Unido, 2005 / Companhia das Letras
O título resume mas não muito bem. Sim, são 103 contos de fadas, mas não apenas a Cinderela que sua mãe contava. Assim como no resto de sua obra, Angela Carter pesquisa a mitologia dos quatro cantos do mundo e deixa claro quão antigas são as discussões sobre o sagrado, o desejo, a punição, o feminino, e por aí vai. Por vezes assustador, na maior tempo muito divertido.

Desonra (★★★★)
J.M. Coetzee, África do Sul, 1999 / Companhia das Letras
É ótimo? É ótimo. Justifica o culto em torno dele? Até que justifica. É história de homem branco, letrado, e aristocrata dando de cara com o "mundo real" de forma brutal e tirando (ou não) algum aprendizado disso? É bem isso. A gente já leu essa história mil vezes, né? Já, mas é ótimo assim mesmo. PS: Desgraça é um título infinitamente melhor e mais cabível que Desonra.

Jóquei (★★★★)
Matilde Campilho, Portugal, 2014 / Tinta da China
A Matilde é muito bonita dentro e fora. A poesia da Matilde é brinquedo de armar. Por vezes nem ela sabe que peça encaixa aqui, acho que é a vermelha, mas pode ser a azul também, se não encaixar a gente dá uma marretada. É poesia de amor bandido, amor doído, poesia de saudade, poesia de poesia, como todo livro de poeta tem. É aperto de mão não muito firme, mas agradável. A chave da porta é essa, não muito firme, mas agradável.

Mas não se matam cavalos? (★★★★)
Horace McCoy, Estados Unidos, 1935 / L&PM Editores
Estava tentando procurar a palavra certa pra definir esta novela do Horace McCoy mas curiosamente ela me fugiu. Era alguma coisa entre seco, crocante, duro, por aí. Sempre achei curioso o título do filme homônimo e eventualmente o material original se materializou na minha frente, talvez um sinal. Pequeno relato de uma maratona de dança que acumulava toda sorte de miseráveis e desesperados, sobretudo aqueles flutuando em torno da indústria hollywoodiana em busca de uma chance, é um texto bem árduo sobre a mais completa desesperança. Se quisesse descrever em inglês eu usaria a palavra bleak.