roda gigante


Gostaria muito de fazer a linha inocente e dizer que não entendi a recepção de Roda-Gigante, mas é preciso ter vivido 30 anos embaixo de uma pedra para não compreender o dissabor com um filme de Woody Allen que envolve paixões por enteadas. Tendo desistido de Allen há bastante tempo (ainda que eu ache Blue Jasmine e Café Society bastante interessantes), só fui tentado a correr atrás desta nova empreitada por conta do comentário de um amigo, que evocou o termo 'teatro filmado' e imediatamente capturou minha atenção. Ok, o que Allen faz aqui não está necessariamente próximo do conceito teatro filmado, já que a câmera, e a maneira como a câmera escolhe filtrar e recortar aqueles corpos confinados no idílio decadente da Coney Island dos anos 50 é particularmente importante para a narrativa, mas não se faz nenhum segredo sobre a pretensão. Há um personagem dramaturgo que cita Eugene O'Neill, planos longuíssimos em que diálogos ferinos e sinuosos são disparados lá e cá, atuações uma nota acima do necessário (ou totalmente fora da marca, vide Justin Timberlake), e no final da soma estamos aí frente a mais velha das histórias sobre amor, obsessão, adultério e descontrole, mas contada sob o belo verniz do moderno teatro americano, e eu não preciso de muito mais que isso.

Para melhor situar, Kate Winslet interpreta uma atriz que largou a carreira para viver com o marido, um operador de carrossel que se vê surpreendido pela chegada da filha, que por sua vez foge de seu marido, um gângster aparentemente perigoso. Além disso, a mulher precisa lidar com seu filho adolescente incendiário, um caso com o salva-vidas local, e seu gradativo retorno à um lugar sombrio de sua personalidade, aonde ela não percebe estar se colocando mais uma vez. É uma ciranda muito obviamente trágica, que pode até se levar mais a sério do que o necessário, mas faz pouco esforço para demonstrar isso, seja o caso. O apetrecho mais importante nessa combinação é a fotografia de Vittorio Storaro, que a princípio parece tomar o caminho óbvio de filmar um parque de diversões e uma praia com todos os seus neons e cores, mas logo passa a manipular a luz numa narrativa à parte. Vermelhos surgem do nada, ambientes se iluminam e se apagam, rostos ganham brilho só para serem mergulhados na escuridão novamente, e uma outra história se conta a partir daí. Consigo entender as reservas com o cinema do Allen a essa altura do campeonato, mas este é um daqueles "filmes-de-cinema" robustos, grandes no melhor e menos dramático aspecto do termo; devia deixar pelo menos um resquício de gostinho agradável na boca do cinéfilo.