me chame pelo seu nome


Call Me By Your Name, livro de André Aciman que dá origem a este filme homônimo do italiano Luca Guadagnino é, entre tantas outras coisas, sobre a impossibilidade de substantivar, de amarrar uma ideia tão etérea quanto a do amor, e como o processo de aceitar tal efemeridade é doloroso para um adolescente com os hormônios fervilhando, não importa se rico, pobre, culto, ou inculto. Nos tropeços e engasgos da voz de 17 anos do Elio escrito, vamos compreendendo antes dele aquilo que suas palavras e pensamentos não conseguem discernir com clareza; que o incômodo causado pelo jovem americano que passa uma temporada estudando em sua casa no norte da Itália é nada mais nada menos que desejo; de se descobrir, de se experimentar.

É óbvio que não posso incorrer aqui no erro de comparar mídias, nem defendo que o livro de Aciman seja um material tido como 'inadaptável', mas é fato que havia ali um tempo dilatado, um espaço e um respiro para que Elio tateasse em busca das verdades de seu corpo e do corpo de Oliver, o que infelizmente não encontra uma tradução clara no filme de Guadagnino. O rumo que a carreira do italiano tomou nos últimos trabalhos (sobretudo Eu sou o amor e A Piscina) denotava ele como a melhor escolha para adaptar uma história sobre sexualidade efervescente porém reprimida que se desenrola num espaço solar e elitista, porém Me Chame Pelo Seu Nome comete o grave erro de não conceder o tempo de que essas personagens tanto precisam.

Não se trata tanto de uma questão narrativa, já que até os rapazes darem um rumo claro para seu relacionamento o filme já caminhou bastante, mas uma problemática à nível de montagem. Se o roteiro surge de um material onde os silêncios, os tempos mortos e a banalidade da vida nesse espaço idílico eram tão relevantes para compreender o que move essas pessoas, é tristíssimo que a montagem de Walter Fasano, colaborador habitual do diretor, pareça estar lutando contra esse sentimento de observação. Há quem argumente sobre esta ser uma opção que remete ao caráter fragmentado das memórias e desejos do protagonista -uma defesa estranha, já que o filme jamais se coloca nesse lugar- mas ainda que fosse o caso, há muitas maneiras de fragmentar sem apressar ou ter um ritmo disforme.

Passei boa parte da projeção pensando no Bertolucci curioso e inocentemente lascivo de Beleza Roubada, filme que guarda um sem número de semelhanças com este mas que tinha, em suas deformidades, algo de muito mais vibrante. Pensei também no Rohmer dos Contos das Estações e sua maneira muito singela de escrever crônicas sobre o cotidiano, o tempo, e sobretudo sobre as possibilidades da palavra falada. Jogo estas referências porque há sim um filme muito bonito em Me Chame Pelo Seu Nome. Estão lá o singelo roteiro de James Ivory, a entrega de Chalamet e Hammer, uma vontade, no fim das contas. O problema é que essa vontade não se faz concreta. Para os menos ingênuos a razão para isso se apresenta tão clara quanto o porquê do ápice sexual do filme ser trocado pela imagem de uma árvore.

P.S.:Cheguei ao fim do texto e notei que não fiz qualquer comentário sobre a questão da homossexualidade dos personagens; talvez signifique algo.

Texto publicado para a cobertura do X Janela Internacional de Cinema do Recife.