breves notas sobre curtas brasileiros


Vando Vulgo Vedita
Andréia Pires e Leonardo Mouramateus (CE)
Nos dois outros momentos em que Leonardo Mouramateus dividiu a direção de seus curtas com algum parceiro me parecia muito evidente a linha que circunscrevia os desejos de cada colaborador, e aquilo reverberava na imagem de uma maneira muito potente, nada nociva. Curiosamente, nesta parceria com a conterrânea Andréia Pires essa linha parece muito menos sublinhada, ainda que permaneça existindo. Nome importante no universo das artes cênicas de Fortaleza, Pires aparenta ser a responsável por certa injeção de urgência, de convulsão que o cinema de Mouramateus costuma limitar ao âmbito da palavra. Vedita, portanto, tem o texto muito preciso, com uma emoção muito bem calculada, mas tem também o corpo livre.
Vando sumiu, aparentemente vítima de um ataque homofóbico, e dele restam fragmentos quase sempre doloridos, resignificados numa grande celebração de tudo aquilo que ele foi e poderia ter sido. Me é particularmente cativante observar um espaço de criação onde os atores estão livres em seu ir e vir, na regulação de suas corporalidades, da intenção de seus gestos. Não é por acaso que depois de uma trágica recriação do que possivelmente foi o destino de Vando, Pires e Mouramateus (e seus atores-jogadores) terminem seu filme com uma celebração. Estar no jogo é, por si só, algo muito belo.

Nada
Gabriel Martins (MG)
Na grande (ou nem tão grande, porém maior que em anos anteriores) confluência de cinemas negros que aconteceram no X Janela o Nada, de Gabriel Martins me saltou aos olhos por um motivo que talvez tome um caminho diverso daquele proposto por um olhar mais crítico. Ainda que sim, este seja também um filme sobre o enfrentamento do indivíduo negro com a sociedade, Nada não mergulha na violência, na brutalidade, no pessimismo, para se fazer compreender.
A trama acompanha uma adolescente de classe média que chega ao fim do ensino médio com a convicção de que fazer vestibular não é a trilha que ela deseja seguir no momento, e por isso enfrenta as críticas dos profissionais do colégio, dos amigos, e sobretudo dos pais, que mesmo bastante liberais se ressentem com o fato da "primeira geração da família que pode entrar para a universidade" escolher não tomar esse rumo. Estão dispostas aí muitas e muito pertinentes questões sobre a condição do povo afro-brasileiro na última década, que se tornam muito mais fortes porque se apresentam como, além de imediatas, muito sensíveis em sua construção.
Compreendo perfeitamente quem prefira o discurso proposto por Pele Suja Minha Carne, de Bruno Ribeiro, onde um adolescente negro se apropria do termo "preto viado" depois de sofrer um ataque racista e homofóbico, ou mesmo da vídeoperformance Experimentando o Vermelho em Dilúvio II, de Michelle Mattiuzzi, onde a artista "desmutila" o próprio corpo, se livrando das agulhas que lhe calam a voz, mas reconheço que são discursos que não se alinham comigo, sobretudo no âmbito imagético. Me parece que a jornada diária da mãe negra e periférica de Deus, de Vinícius Silva, em toda sua maçante rotina e dolorida beleza é muito mais potente, simplesmente porque ela é possível, porque ela luta de dentro para fora.

A Passagem do Cometa
Juliana Rojas (SP)
Vez ou outra, num rompante de honestidade, você chega aos créditos do filme, olha para o colega do lado, e exclama um sonoro "não entendi nada". Salvo engano, A Passagem do Cometa foi o primeiro curta brasileiro que assisti no X Janela e ainda agora, quase duas semanas depois, recordo claramente da sensação de total incompreensão frente às ideias de Rojas. Parte de um projeto chamado O Som do Tempo, que pretende remontar, em curtas metragens, alguns momentos das últimas décadas da história brasileira a partir de canções icônicas (do qual também faz parte o pouco cativante Filme-Catástrofe, de Gustavo Vinagre), Rojas escolheu voltar aos anos 80, muito por conta da estreita relação que seus filmes já travavam com a estética da época, e fazer uma pequena crônica sobre uma clínica de aborto clandestino durante o dia em que se espera a passagem do cometa -talvez o Halley, não recordo ao certo.
E daí o filme caminha, com uma Gilda Nomacce muito assustadora como a médica responsável, as pacientes lidando com as questões relativas ao procedimento, alguns aguardando, outros se ocupando, o mundo gira lentamente, o cometa passa, fica a dúvida sobre o que esperar do futuro; nós aqui do futuro já sabendo que aquelas pessoas tem muito pouco que esperar. Continuo sem a certeza se entendi o que havia para ser entendido, por mais boba que seja esta dúvida. De todo modo é um filme que se amarra inteiro num plano final, numa única fala, e um roteiro bem composto é sempre cativante de se ver.

O Peixe
Jonathas de Andrade (PE)
Posso tentar resumir O Peixe para quem não o assistiu: Em riachos, rios, praias, marés, fotografadas com estonteante requinte por Pedro Urano, Jonathas de Andrade filma pescadores e seus corpos de maneira francamente erótica, enquanto estes se abraçam, acariciam, e por vezes beijam peixes variados até que os animais morram. A sinopse do filme diz: "(...)O sonho romântico da comunidade em harmonia com o seu entorno atesta a falta de conexão do homem da cidade com a natureza que está ao seu serviço. A naturalidade da dominação esconde a espinha dorsal desta relação, constituída pelo constante exercício da força, poder, devoração." Talvez seja isso mesmo, talvez não seja, o que mais me ocorria, entretanto, era o pensamento de que descolar esse projeto de seu habitat natural, que é o museu, talvez tire grande parte de sua significância. No fim das contas eu só conseguia pensar em algum eventual espectador vegano indignado com a crueldade adicionada de um dos últimos quadros, onde o pescador chega a enfiar os dedos nas guelras do animal. Queria assistir a versão original comissionada pela Bienal de São Paulo no formato de vídeo-instalação, talvez seja bem mais interessante.

De Tanto Olhar o Céu Gastei Meus Olhos
Nathália Tereza (MT)
Lembro claramente de ficar muito impressionado com os primeiros filmes de Nathália Tereza (sobretudo com seu impecável A Outra Margem) por conta do absoluto respeito que ela rende à existência de cada um de seus personagens. Fosse a dureza do agroboy que protagonizava o já citado, ou a sensibilidade da jovem de A Casa Sem Separação, existia ali um afeto muito particular pelas dificuldades, pelas escolhas daquelas pessoas, pela maneira como elas decidiram conduzir suas vidas. E ainda que de um ponto de vista narrativo este seu novo trabalho não me tenha sido tão impactante, estão lá os mesmos aspectos que fizeram de Nathália um nome relevante nos círculos do cinema brasileiro.
Se nos primeiros trabalhos se rendia uma atenção muito particular ao etéreo, ao ar que existe nos respiros entre as ações, Meus Olhos soa como um filme um pouco mais urgente, mais focado no que efetivamente acontece, ainda que guarde a mesma delicadeza. Acompanhando a relação de dois irmãos que discutem a maneira de lidar com uma possível aproximação do pai que tanto os desagrada, e que aparentemente deixou marcas em seu passado, Tereza parece filmar o agora, o possível, o acontecimento, e isso pode ser igualmente belo. Talvez eu só tivesse que ajustar minhas expectativas.

Terremoto Santo
Barbara Wagner e Benjamin de Burca (PE)
90% das discussões que tive sobre Terremoto Santo giravam em torno de pessoas, quase todas com vivências de classe média alta, afastadas do real convívio com o evangélico periférico, tentando me explanar o fato de que Wagner e Burca são artistas muito conscientes, que jamais exporiam ou tratariam os personagens de seu filme com chacota. Não é possível que um realizador tenha total controle sobre aquilo que o público vai depreender de seu trabalho, mas nunca me senti tão incomodado com uma sessão de cinema quanto naquele momento em que a plateia do São Luiz, em sua maioria de uma "elite esclarecida", gargalhava com os pequenos videoclipes de música gospel que em conjunto formam o documentário/musical. A estética do mundo evangélico tem, notoriamente, uma inclinação para o exagero, para o kitsch, e por ter nascido e estar até hoje inserido neste universo eu percebo como essa proposta visual é importante para essas pessoas.
Partindo do pressuposto que sim, apesar de toda a cacofonia semiótica causada por fotografia, montagem, e afins, a intenção de Wagner e Burca tenha sido a mais honesta e clara: filmar aquele grupo e toda a sua iconografia de maneira crua, sem interferir em seus processos; por quê, por exemplo, as risadas surgiam com bem menos frequência e intensidade na sessão de Baronesa, de Juliana Antunes? Também se trata de uma realização de classe média observando um ambiente periférico, nesse caso um grupo de mulheres negras na periferia de Santa Luzia, Minas Gerais, e que também abre espaço para que certa "comicidade" própria daquelas pessoas alcance a tela. O que exatamente diferencia esses dois olhares? Ter tido as duas experiências no mesmo dia me aproximou com muita intensidade do trabalho de Antunes, e me rendeu alguns pensamentos muito desagradáveis sobre o que os realizadores brancos e europeus estão indo fazer nas favelas, e como os espectadores que podem pagar dez reais num ingresso recepcionam esses trabalhos.

Texto publicado para a cobertura do X Janela Internacional de Cinema do Recife.