mãe!


Segunda-feira é dia de meia entrada para todos no Cine Rosa e Silva, recanto da classe média/alta culta e esclarecida da província de Recife. É dia de cinema para quem não está podendo gastar o equivalente a duas feiras mensais num ingresso. Vasculho meus bolsos e encontro duas notas de dez reais, o suficiente para chegar até o cinema, ver um filme, voltar do cinema e talvez comer uma pipoca no metrô durante o trajeto. Olhei fixamente para aquela nota de dez reais e pensei comigo será mesmo, querida amiga? será que Aronofsky merece que eu te deixe no caixa do Rosa e Silva e não no bolso da tia que vende tapioca aqui na rua? É comum que a juventude incorra em erros. Meu mais recente ato falho foi não ter seduzido algum rapaz incauto no Tinder e sugerido que ele me convidasse para assistir mãe!, se não pelo ingresso, que quem sabe eu não tivesse precisado pagar, pelo menos eu teria adianta boa parte da duração trocando uns beijos, e na volta para casa poderia ter comido uma tapioca de charque.

Talvez seja positivo pensar que existe financiamento para um filme como este na Hollywood dos nosso tempos, mas não é por isso que ele ganha passe livre para fazer malabarismo com um sem número de bobagens. mãe! é uma metáfora para a criação do universo e Jennifer Lawrence é a mãe natureza, Javier Bardem é deus, a casa deles é o Éden, e o casal formado por Ed Harris e Michelle Pfeiffer são o pecado que surge para destruir aquela placidez, ou são Adão e Eva, ou são qualquer coisa. Ou, na verdade, mãe! é uma metáfora sobre o processo criativo e as dores de uma concepção artística. Jennifer Lawrence e Javier Bardem são artistas batalhando seus demônios e suas artes, a casa deles é a tela que eles desejam colorir e também a matéria prima de suas inspirações, e as pessoas que se amontoam ao longa da história são as distrações e dificuldades de um artista. Ou, quem sabe, mãe! é um sonho febril que surge quando o diretor se incomoda com questões ambientais, e é factualmente um conto apocalíptico sobre o fim do mundo causado pela mesquinharia dos seres humanos. O que nos leva ao ponto crucial: ninguém se importa; e se o diretor se levasse um degrau menos a sério, este filme seria bem melhor.

Quando consegui voltar para casa, e descobri que os deuses (risos) se compadeceram de mim e tinha tapioca para o jantar, me peguei pensando em Samuel Beckett. Não tenho como saber se Aronofsky bebeu em alguma fonte do dramaturgo irlandês, mas mãe! se beneficiaria muito se fincasse o pé no teatro do absurdo, e sobretudo se assumisse a posição de comédia absurda. Claramente há ali um espaço muito rico para que o humor absurdo, o humor incômodo, o humor ácido se estabeleça. Os personagens são caricaturas muito capazes de absorver essa comicidade grotesca e fugir da pompa quase barroca que se espera atingir enfiando a câmera em seus narizes, mas fica tudo só na expectativa. Fonte da Vida, único filme do diretor a tomar um caminho tão marcadamente abstrato, resultava em algo tão melhor porque não deixava essa brecha, essa dúvida estrutural. Aquele sim era um filme pomposo e cafona, na melhor conotação dos termos. Esse aqui teria sido uma farsa muito divertida se não estivesse tão confiante em sua capacidade de reinventar a roda e falar sobre um sem número de questões metafísicas que claramente não consegue compreender. Eu sinto falta dos meus dez reais e sinto falta da época em que Aronofsky não era babaca. Esta última pode ser apenas um delírio da minha cabeça.

ps: que presepada.

mãe! (★★)
Darren Aronofsky, Estados Unidos, 2017