como nossos pais


Em algum momento do terço final de Como Nossos Pais, a personagem de Maria Ribeiro senta para ter uma conversa franca com seu marido sobre os rumos que o relacionamento dos dois tem tomado, e as mudanças que precisam ser implementadas. Se esforçando desde o início do filme para transformar a caricata personagem em alguém crível, esta talvez seja a cena em que Ribeiro melhor se coloca no lugar daquela “dona de casa” de classe média alta, tão atribulada em achar um sentido para a própria vida enquanto administra todos os problemas que a família despeja nas suas costas. No entanto, a montagem de Rodrigo Menecucci opta por sair inúmeras vezes do rosto da atriz e focar também em Paulo Vilhena, que recebe toda aquela carga de informações com estoica inexpressividade. Tenha função narrativa, seja simples opção estética, fica aí uma grande dúvida. Estamos diante daquele que talvez seja o único verdadeiro momento em que Bodanzky alcança algum grau de verdade e gravidade em relação aos desejos daquela protagonista, já que infelizmente as porções dedicadas a ela mesma e suas vontades para com a própria vida não caminham muito além de uma amostragem didática de noções feministas maquiadas e suavizadas para o grande público, e ainda assim a mise-en-scène força aí um choque de pontos de vista. Poderia ser uma refinada crítica, que usa muito bem esse artifício imagético para comentar sobre como os homens não podem viver fora dos holofotes e tem que trazer todas as questões para si, mas soa simplesmente como a replicação de uma ideia de cinema que acaba por se voltar contra o discurso da própria cena. Porque tirar daquela personagem seu minuto de tela? Porque não deixar que ela fale, domine a sequência, se faça ser ouvida e vista? O público realmente não conseguiria se aproximar de uma imagem só porque ela não se organiza a partir de uma noção esquemática onde a percepção do “algoz” é tão relevante quanto o grande momento de redenção da “vítima”?

Não que estas observações sejam de todo inesperadas, quando se colocam em perspectiva com o restante da obra de Bodanzky. Com exceção do afetuoso e dinâmico Chega de Saudade, Como Nossos Pais parece apenas uma continuação natural do maniqueísmo que ditava os rumos de Bicho de Sete Cabeças e As Melhores Coisas do Mundo, filmes que até hoje seguem como muito bons exemplos desse “cinema independente” feito à régua, com ideias maturadas por anos e anos em laboratórios de roteiro, e que no fim das contas rendem produtos que soam como versões gourmet de qualquer boa trama novelesca. Não há, por exemplo, qualquer respiro ou dualidade na construção da personagem de Ribeiro, excetuando-se talvez pelo fato dela cobrar honestidade do marido, ambientalista que vive as voltas com mulheres “jovens e bonitas”, mas ela mesma se deixar levar pelas conversas do pai de um colega de escola de suas filhas, que em dado momento da trama chega a pedir desculpas pelas opressões que o patriarcado infligiu nas mulheres; certamente um dos momentos mais desconfortáveis que vi num roteiro nacional dos últimos anos. Seu pai é um lunático carinhoso, sua mãe é assertiva e cortante, o marido é o estereótipo do “esquerdomacho” que milita pela melhora do mundo mas não lava os pratos do jantar, e sua irmã mais jovem é uma adolescente aborrecida que por acaso se interessa bastante em sexualidade e relações não-monogâmicas. Estão todos ali, dispostos como commodities, prontos para serem manipulados e descartados quando não mais forem relevantes para o projeto de redescoberta pessoal da protagonista.

O grande problema de Como Nossos Pais está talvez em sua gênese, na insipiência de uma ideia que já nasceu cansada e pouco atenta aos próprios temas que pretende discutir. A protagonista pode se dar ao luxo de discutir com seu chefe, perder o emprego, e ainda assim manter uma condição financeira que permite inclusive empréstimos ao pai ou a adição de mais uma pessoa no seio familiar. Se a vontade, além de obviamente fazer uma crônica sobre relações familiares, comentar a situação da mulher -de classe média alta, porque não- no Brasil dos nossos tempos, existe uma brutal desconexão da realidade. Ou realmente Bodanzky prefere se manter falando apenas do que conhece bem, o que não é um demérito de forma alguma, mas para bancar tamanho conto de fadas é necessário que o filme em si, discussões políticas à parte (se é que isso é possível), seja impecável, o que infelizmente não acontece.